MEL BROOKS — O HOMEM QUE TRANSFORMOU O EXAGERO EM ARTE

Mel Brooks nasceu Melvin James Kaminsky em 28 de junho de 1926, no Brooklyn, em Nova York. Filho de uma família judia de origem europeia, era o caçula de quatro irmãos e tinha apenas dois anos quando perdeu o pai. Pequeno, franzino e frequentemente provocado por outras crianças, descobriu muito cedo que uma boa piada poderia funcionar como defesa. Em vez de enfrentar os maiores com os punhos, fazia-os rir — uma estratégia que acabaria definindo toda a sua vida.

Antes de transformar ditadores, monstros, xerifes, vampiros e heróis espaciais em alvos de suas sátiras, Brooks enfrentou uma realidade nada divertida. Convocado pelo Exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na Europa como engenheiro de combate. Sua unidade trabalhava na localização de minas e na limpeza de edifícios com armadilhas deixadas pelos alemães. Mesmo em circunstâncias perigosas, ele recorria ao humor para aliviar a tensão dos companheiros.

Depois da guerra, começou a trabalhar como animador e comediante nos hotéis das montanhas Catskills, até conquistar espaço como roteirista de televisão. Seu grande aprendizado aconteceu na equipe de Sid Caesar, em programas como Your Show of Shows, onde trabalhou ao lado de alguns dos mais brilhantes autores da comédia norte-americana. Nesse ambiente de criação rápida e competitiva, Brooks desenvolveu seu estilo: irreverente, barulhento, inteligente e disposto a ultrapassar qualquer limite em busca de uma gargalhada.

Sua amizade com Carl Reiner produziu um dos números humorísticos mais famosos da época: The 2,000 Year Old Man. Reiner entrevistava solenemente um homem de dois mil anos interpretado por Brooks, que respondia às perguntas históricas com explicações completamente absurdas. O número nasceu de improvisações particulares entre os dois amigos, virou sucesso em discos e apresentações e ajudou a tornar Mel Brooks conhecido pelo público.

Ao lado de Buck Henry, Brooks também criou a série Agente 86 (Get Smart), uma paródia do mundo da espionagem que apresentava agentes secretos, invenções impossíveis e uma organização criminosa chamada KAOS. A série se tornou um fenômeno televisivo e demonstrou que Brooks sabia construir não apenas piadas isoladas, mas personagens e universos inteiros.

Sua estreia como diretor de cinema aconteceu com Primavera para Hitler (The Producers). A história de dois produtores que tentam enriquecer montando deliberadamente o pior espetáculo da Broadway parecia tão ofensiva e absurda que encontrou resistência antes mesmo de chegar às telas. O resultado, entretanto, revelou uma comédia originalíssima e rendeu a Brooks o Oscar de Melhor Roteiro Original. O filme também iniciou sua importante parceria artística com Gene Wilder.

O ano de 1974 confirmou definitivamente sua genialidade. Brooks lançou quase simultaneamente Banzé no Oeste (Blazing Saddles), uma demolidora paródia dos faroestes e do racismo norte-americano, e O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein), realizado em preto e branco como uma homenagem cômica aos clássicos de terror da Universal. Os dois filmes foram grandes sucessos e continuam entre as comédias mais celebradas da história do cinema.

A partir daí, nenhum gênero permaneceu seguro diante dele. Brooks brincou com o suspense de Alfred Hitchcock em Alta Ansiedade; recuperou a linguagem do cinema mudo em A Última Loucura de Mel Brooks; atravessou diferentes épocas em A História do Mundo — Parte 1; atacou as aventuras espaciais em S.O.S. — Tem um Louco Solto no Espaço; reinventou Robin Hood e ainda apresentou sua versão desastrada e bem-humorada do conde Drácula.

Embora tenha construído sua fama com a comédia, Mel Brooks também revelou grande sensibilidade como produtor. Por meio de sua empresa Brooksfilms, apoiou obras sérias e ousadas, entre elas O Homem Elefante, de David Lynch. Seu nome chegou a ser discretamente afastado da publicidade de alguns desses filmes para que o público não imaginasse estar diante de outra comédia. Essa atuação mostrou que, por trás do humorista extravagante, existia um profundo conhecedor de cinema.

Em sua vida pessoal, viveu uma longa história de amor com a atriz Anne Bancroft, com quem se casou em 1964 e permaneceu até a morte dela, em 2005. Os dois também trabalharam juntos, especialmente em Sou ou Não Sou, no qual formaram diante das câmeras um casal de artistas envolvido numa perigosa e cômica resistência aos nazistas. Entre seus filhos está o escritor Max Brooks, autor de Guerra Mundial Z.

Décadas depois de sua estreia, Brooks ainda realizou uma façanha inesperada. Transformou The Producers em um musical da Broadway, com libreto, músicas e letras de sua autoria. A montagem estreou em 2001 e conquistou doze prêmios Tony, estabelecendo um recorde histórico. Brooks tornou-se ainda integrante do seleto grupo de artistas vencedores do Emmy, Grammy, Oscar e Tony — o chamado EGOT.

Mel Brooks completou 100 anos em 28 de junho de 2026, cercado por homenagens e ainda ligado a novos projetos. Sua longevidade parece confirmar aquilo que sempre defendeu: fazer rir não é uma ocupação menor, mas uma forma de enfrentar o medo, a intolerância, a guerra e até a passagem do tempo. Poucos artistas conseguiram ser tão populares e, ao mesmo tempo, tão reconhecíveis. Basta assistir a alguns minutos de qualquer um de seus filmes para perceber que aquela loucura organizada só poderia ter vindo de uma pessoa: Mel Brooks.